Empreendedorismo Social: driblando um momento de crise

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O Coronavírus desencadeou crises por todo mundo e pôs à tona a fragilidade humana em relação a natureza. E diante desse cenário, muitas pessoas perderam seus empregos ou tiveram sua principal fonte de renda comprometida. E isso aconteceu de forma mais perceptível em setores não essenciais da economia, e em grandes cidades onde as medidas de isolamento social e o decreto da quarentena ocorreram há mais tempo.

Sendo assim, foi necessário que os empresários procurassem soluções que trouxessem retorno financeiro para que pudessem se sustentar, e uma das estratégias mais utilizadas foi a abertura de novos negócios. Pode parecer contraditório pensar em se investir em um momento de tantas incertezas, porém há indícios de que essa pode ser uma alternativa muito lucrativa. Um exemplo disso são os e-commerce (pelo fato de as pessoas estarem restritas em casa, a alternativa mais segura e confortável são as compras online).

 Nesse aspecto, o empreendedorismo social se destaca pelo fato de levar em consideração o bem-estar da população em escala regional ou global. É desnecessário dizer que em um momento de crise, atitudes assim são vistas com muito bons olhos e representam grandes oportunidades.

E um exemplo disso é a indústria da moda e de cosméticos, que, apesar das mudanças nos últimos tempos estava longe de ser sustentável. Com a pandemia atual, os consumidores, com tempo disponível e com a autonomia dada pela internet, estão procurando por empresas que possuam uma mentalidade ecologicamente correta. Principalmente agora que a necessidade de uma mudança das relações humanas frente a natureza está evidente. A revista Forbes chegou a comentar que só sobreviverão em um cenário pós pandêmico empresas que investirem nesse tipo de produto.

Mas afinal, o que é empreendedorismo social?

É importante destacar que a ação do empreendedor social é diferente de serviços sociais (quando se age em prol do bem comum, de maneira científica e técnica) e do ativismo social (quando se tenta criar mudanças de forma indireta, influenciando outros – governo, ONGs, trabalhadores, etc). E através da observação da sociedade e de ações concretas, os empreendedores sociais realizam mudanças permanentes, com foco em um público alvo ou na sociedade em geral.

Os Três pilares

A estrutura do empreendedorismo social é composta por:

  • Identificação da desigualdade;
  • Criação de um novo equilíbrio e;
  • Identificação de uma oportunidade: A ação a ser desenvolvida deve desafiar a estrutura vigente, trazendo harmonia, instigando a criatividade e resultando em ações diretas

A questão do lucro

O empreendedorismo social busca promover uma melhor condição de vida a sociedade, através de ações voltadas principalmente a pessoas que não tem axesso a essas condições por conta própria. Assim, nem sempre envolve troca de dinheiro. Ao contrário, normalmente nesse tipo de ação se recusa propostas lucrativas.

Uma das premissas que envolve o empreendedorismo social e o diferencia do tradicional, é que seu objetivo principal não é retorno financeiro, obtenção de lucro. Seu foco é na ajuda prestada a população, com foco nos indivíduos carentes e em situação de necessidade. Entretanto, isso não quer dizer que a ação não possa gerar renda, ou ser organizada sem fins lucrativos. E, no Brasil, a maior parte das ações envolvendo empreendedorismo social estão relacionadas à tecnologia verde, voltadas a preservação do meio ambiente.

 “Esse tipo de negócio traz um impacto positivo que gera valor de forma coletiva ao buscar soluções para problemas da sociedade”

Valéria Barros, analista no Sebrae

O perfil do empreendedor social

O que define o empreendedorismo é a oportunidade. Assim, todos os projetos feitos são realizados com uma margem de segurança pequena e grandes chances falharem. Nesse aspecto, apesar do empreendedor social e o convencional se diferenciarem em relação a seus objetivos principais, ambos têm um ideal mais valioso do que a segurança de se ter um retorno financeiro.

De maneira geral, as principais características do empreendedor social são:

  • Atenção ao seu redor;
  • Empatia;
  • Criatividade;
  • Senso de responsabilidade;
  • Inovação e;
  • Aplicação de técnicas empresariais.

Empreendedorismo social e COVID-19 no Brasil

Os riscos existentes na ação empreendedora tradicional já são grandes, e quando se tem uma questão social por trás, a responsabilidade e o desafio se tornam ainda maiores. Desse modo, a assistência prestada não pode parar.

Nesse sentido, durante a Pandemia, o que está sendo feito é se utilizar da melhor maneira possível os recursos disponíveis para alcançar a população, que neste momento se encontra em casa. No aspecto de redes sociais, por exemplo, a utilização de gatilhos mentais, design, periodicidade de publicações e humanização de marca se tornaram ainda mais relevantes nesse momento.

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Exemplo disso, reside em Maceió (AL), onde se localiza a startup “Clube Vida Criativa”, que promove convivência e bem-estar para pessoas maiores de sessenta anos. As redes sociais da startup durante a crise estão muito ativas, através de lives semanais e acompanhamento via whatsapp. Além de ajudar na inclusão de idosos nas novas tecnologias, a visibilidade da ação aumentou, apesar da falta de lucro.

“Tivemos boa receptividade e ao contrário do que muitos pensam, eles conseguem acompanhar e estão muito conectados aos meios digitais”

Vanessa, uma das sócias do grupo

Além disso, várias ações, voltadas a visibilidade de pequenos negócios, ajuda financeira e gestão de empresas foram tomadas por iniciativa governamental, de bancos ou de outros empreendedores. Assim, ações como “Salve os Pequenos”, que divulga lojas de São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro, em parceria com o “Compre do Pequeno” do Sebrae; o auxílio emergencial dado pela caixa, o Programa Emergencial de Suporte a Emprego, pelo BNDES, entre outros.

Os maiores exemplos de empreendedorismo social

Diante do que foi apresentado, para compreender melhor quais são as ações e impactos provocados pelo empreendedorismo social, os melhores exemplos no Brasil são:  

Rede Asta

Essa empresa faz a produção de acessórios como roupas e itens de decoração por artesãs de baixa renda, a partir da reutilização de materiais. Dessa maneira, seus objetivos são:

  • erradicação da pobreza;
  • promoção de capacitação consumo e produção conscientes e;
  • igualdade de gênero.

Nesse sentido, o projeto teve início em 2005, no Rio de Janeiro, por Alice Freitas e Rachel Schettino em apoio a 9000 artesãs. E, consequentemente, gerando uma renda de R$ 3926,87, e a reutilização de 15 resíduos por tonelada. A partir disso, a Rede vem gerando um faturamento superior a R$ 13.000,00. E o motivo gerador dessa ação foi o encanto de Alice pelo artesanato encontrado na Índia, que despertou a vontade da valorização dessa arte no Brasil. Assim, a rede é fornecedora para grandes lojas como Renner e C&A, e já ganhou diversos prêmios como o Prêmio Planeta Casa em 2009.

Terra Nova

Essa empresa funciona desde 2001 atuando na área de habitação, e auxiliando moradores que ocupam áreas de forma irregular a conseguir, mediando junto aos órgãos públicos, o título das terras. Dessa maneira, no Brasil, está presente em 4 estados, 11 cidades e 30 comunidades e já foram impactadas mais de 38 mil pessoas – em um total de 3 milhões de m² em áreas regularizadas.

Nesse sentido, vários profissionais (psicólogos, advogados, arquitetos-urbanistas, administradores, entre outros) ajudam o grupo a ter um grande impacto social respeitando parâmetros jurídicos e urbanísticos, e além disso vários prêmios fazem parte dessa história, como o Omidyar Network & Ashoka’s Changemakers em 2011, além do selo ODS em 2017.

Graacc

Essa empresa, já é voltado ao tratamento do câncer infantil, com o objetivo de minimizar ao máximo os impactos do tratamento na vida do paciente. Assim, com todos os recursos possíveis, o hospital GRAACC é o primeiro centro médico brasileiro especializado em oncologia pediátrica e receber a acreditação internacional JCI.

Nesse sentido, ele foi criado em São Paulo em 1991, tem parceria com a Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e atende jovens de todo o Brasil. E, seus fundadores são Lea Della Casa Mingione (superintendente emérita do voluntariado), Jacinto Antonio Guidolin (Engenheiro Civil) e Antonio Sérgio Petrilli (Médico). E a iniciativa surgiu da insatisfação com o cenário brasileiro diante da falta de perspectiva humanizada, e da falta de conforto e segurança aos pacientes que sofrem com o câncer infantil.

Buscando tendências e resolvendo problemas

Assim, diante de todos esses exemplos, o que se pode perceber é que os fundadores, em sua maioria são pessoas comuns, sem grande conhecimento técnico na área em questão. Entretanto, com muita vontade de fazer a diferença, e capacidade de identificar algum problema da sociedade. E, a partir disso, a busca por conexões favoráveis e uma proposta atrativa e funcional fazem com que o empreendimento cresça.

Desse modo, novos empreendedores sociais podem surgir dos mais diversos locais e nas mais adversas situações. Além disso, diante do cenário vivido atualmente, o que se pode esperar é que os empreendimentos que surgirem daqui em diante passem a observar mais os aspectos da sociedade. Assim, reveja suas metas e suas perspectivas. Pois, sua oportunidade de empreender pode estar em uma dificuldade ou tendência observada na sociedade em que vive.

Texto escrito por Maria Fernanda, Consultora de Projetos da PUC Consultoria Jr.

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